sexta-feira, 14 de maio de 2010

Dos 11 aos 19 anos


O homem não teceu a teia da vida,
ele é meramente um fio nela.
Tudo o que ele faz à teia, ele faz a si mesmo."
(Carta do Cacique de Seattle)








Começou aos 11 anos, uma vida em que a brincadeira era ser adulto, nada de gostar de estudar, porque tinha roupa para lavar, nada de gostar de handbol ou corrida no colégio, porque tinha que cozinhar feijão, nada de brincar na rua, porque tinha que limpar a casa. E as únicas horas em que eu era realmente feliz, era quando eu punha meu shorts vermelho, minha saia branca de preguinhas e meu "conga" e ia para a aula de educação física da professora Alice.
O feijão queimava ou ficava duro, a roupa acumulava e a casa fica em petição de miséria, mas com que diabos alguém, em sã consciência, poderia acreditar que uma menina de 11 anos daria conta de cuidar de uma casa com 5 homens e ela? Ainda hoje eu me pergunto como, algumas vezes também por quê?
Aos 12 eu conheci a menarca e os tormentos de iniciar um corpo de mulher. Era difícil não ter uma referência feminina para essa mudanças, e certamente eu não queria ser dona de casa, muito menos mulher. Um terror se apoderava de mim quando o lado masculino me dirigia olhares lascivos e eu não conseguia entender o que eu tinha feito de errado para aquilo acontecer. Piorou ainda mais, quando esse terror vinha à noite, do meu próprio lar e da pessoa que eu nunca consegui respeitar, depois disso, e que me fazia ver os homens como realmente pessoas a se temer. Felizmente nunca aconteceu o pior, mas eu dormia com calça jeans, o mais apertada possível, com medo de algo que eu não sabia bem o que era.
Nessa época iniciou-se meu fascínio pela leitura. Lia tudo o que encontrava, admirava as dicas de etiqueta e sentia um fascínio pela pessoas bem educadas, que falavam baixo e de forma delicada, que tinham classe e diziam coisas inteligentes, dos lugares limpos e das famílias em que pai e mãe estavam presentes. Sonhava com as fotonovelas e vivia num mundo de fantasias, interpretando situações e deixando a criatividade fazer o seu papel.
E eu me rebelei, fui para o fundo da sala de aula, fiz bagunça, cabulei algumas aulas, tirei 0,5 em Geografia e Matemática, depois estudei feito louca, com medo de repetir de ano (nunca pude admitir repetir, eu era considerada inteligente, ah isso não!) e tirei 9,5 em ambas matérias. Levei um puxão de orelhas da professora de geografia, que era também professora do meu irmão, e de algumas pessoas que me queriam bem.
Aos 13 eu já era uma menina triste, que chorava freqüentemente e se perguntava por que tinha que cuidar dos irmãos, ter um pai bêbado e ter que receber seus materiais escolares dos amigos de sala de aula (era humilhante e gratificante), usar roupas que eram doadas por outras pessoas e não se sentir nem um pouco amada. E tinha também o assédio do marido da minha vizinha, que insistia em querer sair comigo. Eu tinha asco dele.
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As coisas mudaram muito pouco nos próximos anos, até que aos 16 eu resolvi trabalhar; aos 17, com a situação ficando insustentável, fomos divididos: eu e os dois menores fomos morar na casa da minha madrinha, e os dois mais velhos na casa do meu tio Minoru. Voltamos para casa quando eu fiz 18, porque minha tia não tinha condições de nos sustentar, eu não conseguia um emprego e também porque meu irmão mais velho, freqüentando a igreja católica, achou por bem perdoar o meu pai e retornarmos.
Aqui, propositalmente eu omiti meus relacionamentos afetivos, por querer falar deles em separado, numa próxima postagem.
Aos 18, consegui um emprego numa empresa chamada Cobrasfer (ferramentas pneumáticas), fazia cursinho pré-vestibular num local chamado Equipe. Na Cobrasfer fui assediada por um cara que eu ia substituir, que era casado e prometia se separar da esposa por mim. E eu me perguntava por quê essas coisas aconteciam comigo, eu nunca ia querer servir de separação para ninguém, não me interessavam os caras casados, at all.
Nessa época conheci uma garota, que se tornaria meu primeiro ídolo feminino e que me mostrou o caminho para a independência pessoal e financeira. Ela morava sozinha, numa kit na Vergueiro, trabalhava no Hospital Beneficência Portuguesa e pensava em estudar Medicina. Tencionava fazer algo assim e Medicina me pareceu algo com o que eu me identificava muito e decidi que iria fazer também. Só não contava que trabalhava o dia inteiro, não tinha condições financeiras , nem emocionais para algo assim. E não passei nos Vestibulares para Medicina, mas como segunda opção (Psicologia), em Guarulhos, passei nas duas faculdades de lá. Optei pela que minha melhor amiga na época tinha passado, especialmente porque o pai dela iria me emprestar o dinheiro para a matrícula, que eu teria só dias mais tarde.
Já com 19 anos, estava cursando Psicologia, que também atendia aos meus anseios de "ajudar pessoas" e mudei de emprego para o Serpro, trabalhando no Ministério da Fazenda por 3 anos.


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