”Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
em vão, por toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!"
(Mário Quintana)

Lembro pouco das coisas da minha infância, sei algumas que me foram contadas, mas tenho a sensação de que foi o melhor período da minha vida.
Sou a terceira de cinco filhos , a única mulher. Depois de mim, houve uma gravidez que resultou em morte (não sei o motivo) e, quando eu tinha quase 11 anos, oito dias para os onze, minha mãe morreu no parto, provavelmente de ataque cardíaco, e a criança, ou gêmeas como acreditei até bem pouco tempo, também morreram. De lá pra cá, as coisas pareceram, quase sempre, doloridas e sem sentido para mim.
Eu sempre tive um olhar brilhante e curioso e um desejo de saber e explorar. Uma energia, que fazia me mãe dizer, injustamente, é claro (se existe céu, ela deve estar sendo processada por injúria e difamação...haha), que eu era pior que meus quatro irmãos juntos. Bom, eu gostava de subir no batente da porta até chegar ao fim dela, gostava de subir nos muros e pular de sobrados em construção (na areia que ficava em baixo), jogava rouba-monte, apostava corrida, chutava bola, brincava de amarelinha, queimada, esconde-esconde, duro ou mole.
Minhas bochechas eram rosadas e minha saúde ótima, embora nós tivessemos uma vida difícil. Meu pai era sapateiro e minha mãe aposentada por invalidez (parece que teve algo como osteomielite no quadril, foi proibida de engravidar, mas a ignorância prevaleceu e a morte a levou aos 37 anos, dez dias antes de completar 38. Tudo no mês de abril. Ela nasceu dia 30 e morreu no dia 20. Eu nasci no dia 28.
Das lembranças da infância, tenho dois episódios hilários: no primeiro, era carnaval e nós tínhamos a felicidade de brincar na rua. Eu morava num bairro chamado Parada Inglesa, em São Paulo e era muito bom poder brincar de jogar confete e serpentina. Tinha os martelinhos, que as pessoas usavam para bater nas cabeças uns dos outros, enfim, era saudável. Acontece que para ter essas coisas, era necessário comprá-las e meus pais não tinham dinheiro para tais extravagâncias. Eu devia ter uns 6 anos, mais ou menos e decidi que pegar um pouco de dinheiro da gaveta do meu pai, achando que não era nada demais e ele nem perceberia, porque eu era "muito esperta". Comprei confete, serpentina, joguei nas pessoas e a diversão foi geral até que fui perguntada como tinha conseguido tais coisas. Tentei mentir dizendo que tinha achado e apanhei mais ainda por ter mentido. Mas valeu a diversão! O segundo acontecimento foi a origem do meu medo por aranhas. Meus pais eram rígidos com pegar coisas que não nos pertenciam, mas aqueles sapatos que minha vizinha tinha jogado no lixo, eram tão bonitos e tão novos ainda, que resolvi experimentá-los e caso servissem, eu pediria a ela para dizer que queria dá-los para mim e tudo estaria bem. Para isso, escondi os três pares e entrei escondida no banheiro e tranquei bem a porta (nosso banheiro ficava ao lado da entrada da casa e a porta tinha uma abertura em baixo e outra em cima). Experimentei o primeiro par e oba! serviu, experimentei o primeiro pé do segundo par e ao pegar o segundo pé, o sapato caiu e saiu dele uma enorme aranha branca. Eu gritava tanto que meus pais ficaram desesperados e enquanto eu tentava me esconder atrás do vaso sanitário, a aranha vinha em minha direção e meu pai tentava abrir a porta, quando ela mudou de rumo e foi parar em cima da mão do meu pai, que acabou por matá-la. Ao abrir a porta, eu estava histérica e corria sem parar, até levar um chacoalhão para recuperar a sanidade. O pior foi ter que devolver os sapatos, que foram para o lixo mesmo!
Tive outros momentos, tipo correr no quintal em L que tínhamos e minha mãe falar para parar senão eu ia acabar me machucando e acabei por escorregar e bater o olho na ponta da cadeira. Tenho uma cicatriz para provar...Isso aos 5 anos mais ou menos.
Aos quase sete, a ansiedade de ir para a escola, me fazia reclamar porque não me chamam logo, meu nome começa com R, demorava mesmo! e quando me chamaram, gritei tanto que era eu, que minha mãe ficou envergonhada.
Na foto, sou a segunda à direita na primeira fila ao alto.

Acho que tá bom, no próximo vou focar a adolescência.
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