sábado, 29 de outubro de 2011

Desventuras em série


Durante anos lutei contra a desconfiança de que minha mãe estivesse viva em algum lugar, de que todos soubessem, menos eu – eu via nos olhares ora constrangidos ora zombeteiros das pessoas.
Os anos se passaram, ela não veio – talvez porque estivesse mesmo morta – ninguém vem, ainda que prometam enquanto vivos.
Passados mais alguns horrores, pensei ter encontrado o amor e a solução dos meus problemas, o que sonhei por tantos anos, mas novamente a tal felicidade me escapou pelos dedos.
Encontrei ainda outro amor, outros tantos problemas e desencontros, e finalmente fui mãe; e para não perder a viagem, perdi minha outra mãe também – aquela que por alguns anos esteve comigo com dedicação e amor sinceros.
A maternidade impõe dedicação, cuidados, conflitos e renúncias. Com acertos e erros- talvez mais os últimos, fiz minha parte da melhor maneira que pude.
Passaram-se outros tantos anos e quando pensei ter  a oportunidade de obter companheirismo, percebi que mais uma ilusão caiu por terra. E ainda fui acusada de nunca apoiar em nada.
Certamente o mundo exterior é mais acolhedor, pois se usa mascarar o verdadeiro eu e se mostrar assim uma pessoa adorável.
O companheirismo está em se valorizar e preservar aquilo que o outro conquistou com sacrifício. É muito fácil dizer que não nasceu para certas atividades, especialmente quando alguém as faz por você.
Enfim, é muito triste saber que talvez não seja possível encontrar alguém que valorize as mesmas coisas que a gente, mas se tenho mesmo que viver mais, devo que encontrar um meio de sobreviver (de novo!).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011



Monday, 18 de Janeiro de 2010

Escrevo essas memórias em 14 de out de 2011. Ai, que saudade!

Saí do Hostel às 8h, fui até a estação de metrô e tive a desagradável surpresa da Swiss Cottage estar com as escadas rolantes em manutenção. A assistente tentou me alertar antes do embarque, mas eu não entendi. Ao passar pelo bloqueio, entendi, olhei para a moça e disse “Sorry” (provavelmente ela tenha pensado “sorry  para você”. Ah, my bad English! Por sorte, um gentil cavalheiro me ajudou (coitadinho dele, estavam muito pesadas as minhas malas).
Esperei um pouco para embarcar por ser horário de pico.
Ao chegar à London Bridge Station, tive a infeliz surpresa de ter mais escadas para subir com minhas adoráveis malas e um longo caminho até a estação de train que leva ao Luton Airport. Quase 9h e o train saía 9h06. Consegui o ticket e fui para a plataforma, mas o train atrasou e saiu às 9h30. Muita neve em nossas vidas!
Meu vôo era às 11h50, então tinha tempo mais que o necessário.
O check in abriria às 9h20. Cheguei à estação às 11h, pois o trem parou também no trajeto.
O check in fechava às 11h30 e com a pressão de entrar logo, errei a fila e fiquei no check in de Tel Aviv (indicada por um funcionário). Chegada a minha vez, a atendente me informou ser a fila errada. Ao sair da fila, o mesmo guichê foi aberto para Lisboa. Ainda bem, porque as outras filas eram quilométricas!
Tendo apresentado o nº da reserva, que a atendente de má vontade, me devolveu, me pediu então o passaporte. Nisso, ela me disse que eram duas malas. Sim, eu reservei e paguei pela Internet. Foi então que eu descobri que tinha pago pela bagagem e não pelos quilos dentro dela. Ainda assim, pensei que pagaria por 5 kg extras, já que o permitido é uma mala de 20kg, e eu tinha uma de 22 e outra de 23. Nesse ponto da tragédia fiquei sabendo que pagaria por 25 kg extras. Quando fiz a reserva, entendi que pagaria 9£ por outra mala, então calculei rapidamente que teria que pagar mais 45£, pelos 5 kg a mais. Ela me disse algo como 25£, então achei bem razoável, já que havia sido informada (ou pensava que havia sido) que no aeroporto seria mais caro. Paguei e guardei o canhoto, mas na pressa, não conferi, embora tivesse tido a impressão de que o valor estava incorreto (muito inglês na minha vida!).
Só me dei conta dentro do avião, que havia pago 250£ e fiquei a viagem toda, desesperada com o fato de não ter mais 250£ para pagar a bagagem na volta. Pânico total!
Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, fui checar se teria havido um engano e o funcionário, falando português, disse que era aquilo mesmo e que na volta eu deveria trazer o máximo de bagagem comigo, até 15kg, pois assim diminuiria o valor da volta. Falou que lamentava, mas que era aquilo mesmo.
Meio sem chão ainda, perguntei onde ficava meu Hostel e fui de táxi até lá. Custou 12€(Muito caro!). Só para constar, tem um ônibus no aeroporto, que passa na Praça do Comércio, que é próxima ao Hostel e custou 4,80€ - só descobri depois de alguns dias por lá. No Hostel (Lisbon Poets Hostel), que fica no Bairro do Chiado (Rua Nova do Trindade,2), fui bem atendida, tomei banho e fui lavar a minha roupa. Como precisava de duas lavagens completas (roupas brancas e coloridas), cobraram 14€ (outro roubo!). Fui ao supermercado, comprei água e algumas frutas e conheci um pouco da cidade. Não gostei, talvez influenciada pelos últimos acontecimentos. Tomei um vinho que vem numa embalagem igual a do Toddinho (depois explico isso).
Entrei na Internet, deixei um recado para a Alice e enquanto aguardava a segunda leva de roupas secarem, adormeci e acordei na terça-feira.
Tinha um canadense que é de Montreal e mora em Londres desde set 2008 e que estava no mesmo quarto que eu (lá os quartos também são mistos).



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O desânimo



O desânimo

 © Letícia Thompson

Deveríamos todos parecer flores no início da primavera. A própria imagem da vida, abertos, viçosos, esperançosos e sorridentes, muito sorridentes aos passantes.
Só que a vida é um lutar constante. Quando chegamos prontos para a batalha, não sabemos ainda como serão as lutas, o que vão exigir, o que vão tomar de nós. E é assim em várias áreas da nossa vida, que seja física, espiritual, amorosa, nos nossos relacionamentos com os outros...
O lutar nos cansa; as respostas que tardam a vir nos cansam, as esperanças prorrogadas ao dia-a-dia podem tornar-se cansativas. A fadiga chega, o desânimo se apossa de nós e tira nossas forças.
A fadiga psicológica é muito mais perigosa do que qualquer outra que venha tomar conta de nós. Não basta uma noite de descanso ou uns dias de férias. Oxalá fosse assim! Muitos dos nossos problemas seriam resolvidos a cada fim de semana.
Quando nos deparamos com uma situação em que não vemos saída é inútil continuar se debatendo, isso só vai aumentar o desânimo.
É preciso em certos momentos deixar-se abandonar, não para desistir, mas para se recuperar as forças, olhar com objetividade, dar-se a ocasião de reconhecer-se fragilizado e humano e, por isso mesmo, igual a todo mundo. Há os que nunca perdem a coragem e vontade de lutar, mas ainda não conheci alguém que nunca tenha tido um momento, nem que seja um momento, de desânimo. E não é errado, não é anormal.
É apenas nosso ponto de limite e isso é muito individual, por isso nada de comparações. Ninguém é melhor que ninguém por que parece mais forte e resistente, as pessoas apenas são diferentes.
 Jesus chorou, mas não desistiu de Jerusalém. Ele pediu que o cálice fosse passado, mas carregou a cruz e foi pregado nela.
Vocês já observaram flores que ficam muito tempo sem água? Elas murcham, ficam abatidas. Mas em geral é suficiente um copo de água fresca e logo depois elas reerguem-se, como muitas quando recebem o sereno na madrugada. Chegam prontas para enfrentar o dia. E é assim conosco.
Que as lágrimas venham, venham sim! E que venham os tempos de estia! Mas que não morramos de fraqueza, que a noite chegue trazendo o sereno, que a primavera volte! Quantas e quantas vezes é suficiente levantar um pouco os olhos para ver que as soluções estavam ao nosso alcance, a gente é que estava cansado demais para procurar direito.
Disse Jesus: No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo! Eu venci o mundo.
E se estamos em Cristo e Ele em nós, nenhum obstáculo será intransponível, nenhuma estrada será longa demais.

Letícia Thompson