“Somos o que repetidamente fazemos.
A excelência, portanto, não é um feito,
mas um hábito.”
(Aristóteles)
Mais ou menos aos 16 anos, percebi que precisava trabalhar, se quisesse mudar algo em minha vida.
Começei trabalhando na zona cerealista da região do Mercado Municipal, com dois irmãos. Um se chamava Jobair e o outro Jocenir, por indicação de uma prima que morou em casa por uns tempos. O Sr Jobair me ensinou que havia homens que tinham matriz e filiais (esposa e amantes), chegou a me propor, de forma elegante, a me tornar uma filial, pois me achava linda e tal. A forma elegante foi me levar para almoçar num restaurante no Brooklin (onde pediu Pintado na Brasa) e onde eu vi pela primeira vez, garçons, talheres múltiplos e taças, que não sabia como usar, at all. Ele era elegante, engraçado e respeitador, daqueles canalhas que fazem a mulher pensar que é uma rainha enquanto está com eles. Cantava para mim a música "Aqueles olhos verdes", que foi sucesso na época dos meus pais (ele tinha idade para ser meu pai). Acho que ele não teve coragem de tentar nada comigo, porque percebeu que eu era ingênua e que estava maravilhada com essa nova vida que nunca tinha tido a oportunidade de conhecer. Meus olhos sempre denunciaram minha fascinação com algo!
Depois desse dia, continuamos a almoçar juntos, nós três, como sempre fazíamos, mas nas proximidades do trabalho mesmo, e ele nunca mais tocou no assunto. Fiquei lá por 3 meses, os negócios iam mal e eles me dispensaram.
Trabalhei depois num supermercado, como auxiliar de escritório, caixa e o que me mandassem fazer. Quando pedi as contas, fomos morar com minha tia em Guarulhos, por conta com um desentendimento sério com meu pai.
Em Guarulhos, trabalhei num escritório de contabilidade, mas ganhava muito pouco e não consegui nada melhor até completar os 18, quando voltamos a morar com meu pai.
Essa volta para a casa paterna me fez pensar em como era bom ter a casa limpa, as roupas cuidadas e ser bem alimentada, coisas que nós vivenciamos com a minha tia, a qual não tinha reais condições de ter mais três bocas para sustentar. Eu fazia o 3º colegial, tinha aprendido a fumar e me sentia terrivelmente culpada, por comprar cigarros e não ajudar minha tia financeiramente. Quase sempre jogava os maços fora, com culpa.
Após, algum tempo depois do retorno, consegui um emprego como auxiliar de escritório, mas a diretora da empresa, quando me entrevistou, gostou do meu jeito e me propôs ir para a filial de vendas, com salário maior. Meu chefe era um francês, Claude Bernard, que ficava fascinado com o fato de eu conseguir atender ao telefone e fazer as estatísticas que ele me pedia. (Imagina se fosse hoje, com toda essa tecnologia!).
Como já ganhava algum dinheiro, decidi que poderia financiar uma TV, pois num incidente infeliz entre meu irmão mais novo e eu, quebramos a TV que nos fora dada pela tia Maria. Eu queria um canal, ele outro, eu mudava, ele mudava, ele se agarrou à TV e eu puxei, ela caiu, quebrou e eu coloquei mais esse item de culpa na minha coleção.
Depois disso, achei que era hora de comprarmos uma geladeira (pois é, ainda não tínhamos uma em 1978!), perguntei aos dois mais velhos se podia contar com eles para ajudar , recebi um sim como resposta e uma dívida inteirinha para pagar. Depois veio a ideia da máquina de lavar, porque era cansativo demais, trabalhar o dia inteiro e ter poucas facilidades em casa, mas desisti logo por avaliar a real situação em que me encontrava.
A ideia de uma vida melhor, me seduzia mais e mais e eu fui ver como era o plano de habitação, mas meu pai, sempre acomodado (no fundo ele tinha razão, porque não dava mais tempo de mudar de vida), não quis e então começaram as idéias de morar sozinha e construir um futuro, já que os homens daquela casa não se mexiam para progredir. Era lamentável a figura do meu pai e meus irmãos cresceram sem uma referência para progredir e se espelhar. Pobres homens da minha casa, tão fracos e tão sem determinação! Eu tive que me tornar a líder, se quisesse sobreviver. Foi aí, que vesti a couraça de forte e decidi que eu não teria aquela vida para sempre, não se dependesse de mim.
Como já comentei, aos 18, conheci a Cecília, uma moça independente e corajosa (mais tarde eu entendi que ela também lutava para sobreviver), que morava sozinha e pagava as próprias contas. Se ela podia, eu também poderia e essa ideia foi amadurecendo, até que aos 22 decidi sair de casa e morar sozinha.
A mesma Cecília, havia se casado e mudado. Eu trabalhava no Beneficência com ela, e morar ali seria perfeito, porque era perto do trabalho e porque eu e o Gilmar já tínhamos intimidade e seria bom termos nosso canto. Certo dia, comentei minhas intenções com minha tia Lurdes, aquela de Guarulhos, e ela achou perigoso, uma moça sozinha, morando na cidade, etc, mas eu estava decidida; com medo mas decidida. Uma semana depois, o inquilino da minha tia mudou e ela me ofereceu a casa dos fundos dela, com a boa notícia de que ela e meu primo, Rubens, decidiram que não me cobrariam aluguel.
Deixei a culpa de abandonar meu pai e irmãos e tomei coragem de contar minha intenção, argumentando que precisava estudar e cuidar do meu futuro. Meu pai não gostou, mas não tinha argumentos, pois infelizmente eu já não o respeitava havia muito tempo. Eu não era agressiva, só não tinha aquele apreço, que o amor, o cuidado e o respeito nos dá. Meu pai e meus irmãos eram quase estranhos para mim, pois vivíamos em mundos tão distintos que chegava a doer.
E no dia 22 de julho de 1982, eu me mudei e levei a geladeira; alguns meses depois, a culpa me fez comprar uma usada para eles. Soube, algum tempo depois, que algumas pessoas me condenaram por ter saído de casa, mas essas pessoas nunca foram me dar nenhuma palavra de aconchego, nas inúmeras vezes que eu necessitei. Até hoje não me arrependo.
Assim, morei na casa da minha tia até 2001, quando comprei o apartamento em que estou hoje e mais uma vez, devo à eles, minha tia e primo, muito das minhas conquistas e do amor que eles puderam me dar, a mim e a minha filha também.