domingo, 16 de maio de 2010

Quem me ensinou



“Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário,
não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.” (Mahatma Gandhi)





Minha mãe: deu a base para a educação, devo à ela, os princípios de generosidade, respeito e dignidade. Fazer o melhor com o que se tem.
Meu pai: mostrou quase tudo o que não se deve fazer com os filhos.
Tia Maria: generosidade e amor pela família. Abnegação, elegância e delicadeza. Fazer deliciosa Maria-Mole também! Ah, e o melhor arroz doce do mundo!
Tia Lurdes: generosidade, bondade, amor, limpeza, dedicação, fazer muito com pouco, educação sem cultura.
Rubinho: gostar de gibis, a saber o nome dos ministros, a amar os bichos, a gostar de educação e cultura (embora tenha abandonado anos depois), amá-lo como irmão.
D.Aurora: a ler, escrever, ter letra bonita e não ser tão tagarela (bom, isso ela não conseguiu, mas tentou!)
D. Sílvia: a compartilhar meus problemas.
D. Tata: a não falar palavrões, a não fugir dos objetivos, acreditar na disciplina.
Jane:  a amizade.
Soninha: o companheirismo.
Gilmar:  o amor e a determinação.
Fábio: a gentileza, a delicadeza e sobre a fraqueza.
Alice: o amor, mesmo quando eu não merecia e as diferenças que separam.
Nana:  o amor incondicional (minha cachorra)
D.Paulina: alegria de viver

Muitas pessoas estiveram presentes na minha vida, mas essas foram as que mais marcaram.

Independência ou morte



“Somos o que repetidamente fazemos.
A excelência, portanto, não é um feito,
mas um hábito.”
(Aristóteles)





Mais ou menos aos 16 anos, percebi que precisava trabalhar, se quisesse mudar algo em minha vida.
Começei trabalhando na zona cerealista da região do Mercado Municipal, com dois irmãos. Um se chamava Jobair e o outro Jocenir, por indicação de uma prima que morou em casa por uns tempos. O Sr Jobair me ensinou que havia homens que tinham matriz e filiais (esposa e amantes), chegou a me propor, de forma elegante, a me tornar uma filial, pois me achava linda e tal. A forma elegante foi me levar para almoçar num restaurante no Brooklin (onde pediu Pintado na Brasa) e onde eu vi pela primeira vez, garçons, talheres múltiplos e taças, que não sabia como usar, at all. Ele era elegante, engraçado e respeitador, daqueles canalhas que fazem a mulher pensar que é uma rainha enquanto está com eles. Cantava para mim a música "Aqueles olhos verdes", que foi sucesso na época dos meus pais (ele tinha idade para ser meu pai). Acho que ele não teve coragem de tentar nada comigo, porque percebeu que eu era ingênua e que estava maravilhada com essa nova vida que nunca tinha tido a oportunidade de conhecer. Meus olhos sempre denunciaram minha fascinação com algo!
Depois desse dia, continuamos a almoçar juntos, nós três, como sempre fazíamos, mas nas proximidades do trabalho mesmo, e ele nunca mais tocou no assunto. Fiquei lá por 3 meses, os negócios iam mal e eles me dispensaram.
Trabalhei depois num supermercado, como auxiliar de escritório, caixa e o que me mandassem fazer. Quando pedi as contas, fomos morar com minha tia em Guarulhos, por conta com um desentendimento sério com meu pai.
Em Guarulhos, trabalhei num escritório de contabilidade, mas ganhava muito pouco e não consegui nada melhor até completar os 18, quando voltamos a morar com meu pai.
Essa volta para a casa paterna me fez pensar em como era bom ter a casa limpa, as roupas cuidadas e ser bem alimentada, coisas que nós vivenciamos com a minha tia, a qual não tinha reais condições de ter mais três bocas para sustentar. Eu fazia o 3º colegial, tinha aprendido a fumar e me sentia terrivelmente culpada, por comprar cigarros e não ajudar minha tia financeiramente. Quase sempre jogava os maços fora, com culpa.
Após, algum tempo depois do retorno, consegui um emprego como auxiliar de escritório, mas a diretora da empresa, quando me entrevistou, gostou do meu jeito e me propôs ir para a filial de vendas, com salário maior. Meu chefe era um francês, Claude Bernard, que ficava fascinado com o fato de eu conseguir atender ao telefone e fazer as estatísticas que ele me pedia. (Imagina se fosse hoje, com toda essa tecnologia!). 
Como já ganhava algum dinheiro, decidi que poderia financiar uma TV, pois num incidente infeliz entre meu irmão mais novo e eu, quebramos a TV que nos fora dada pela tia Maria. Eu queria um canal, ele outro, eu mudava, ele mudava, ele se agarrou à TV e eu puxei, ela caiu, quebrou e eu coloquei mais esse item de culpa na minha coleção.
Depois disso, achei que era hora de comprarmos uma geladeira (pois é, ainda não tínhamos uma em 1978!), perguntei aos dois mais velhos se podia contar com eles para ajudar , recebi um sim como resposta e uma dívida inteirinha para pagar. Depois veio a ideia da máquina de lavar, porque era cansativo demais, trabalhar o dia inteiro e ter poucas facilidades em casa, mas desisti logo por avaliar a real situação em que me encontrava.
A ideia de uma vida melhor, me seduzia mais e mais e eu fui ver como era o plano de habitação, mas meu pai, sempre acomodado (no fundo ele tinha razão, porque não dava mais tempo de mudar de vida), não quis e então começaram as idéias de morar sozinha e construir um futuro, já que os homens daquela casa não se mexiam para progredir. Era lamentável a figura do meu pai e meus irmãos cresceram sem uma referência para progredir e se espelhar. Pobres homens da minha casa, tão fracos e tão sem determinação! Eu tive que me tornar a líder, se quisesse sobreviver. Foi aí, que vesti a couraça de forte e decidi que eu não teria aquela vida para sempre, não se dependesse de mim.
Como  já comentei, aos 18, conheci a Cecília, uma moça independente e corajosa (mais tarde eu entendi que ela também lutava para sobreviver), que morava sozinha e pagava as próprias contas. Se ela podia, eu também poderia e essa ideia foi amadurecendo, até que aos 22 decidi sair de casa e morar sozinha.
A mesma Cecília, havia se casado e mudado. Eu trabalhava no Beneficência com ela, e morar ali seria perfeito, porque era perto do trabalho e porque eu e o Gilmar já tínhamos intimidade e seria bom termos nosso canto. Certo dia, comentei minhas intenções com  minha tia Lurdes, aquela de Guarulhos, e ela achou perigoso, uma moça sozinha, morando na cidade, etc, mas eu estava decidida; com medo mas decidida. Uma semana depois, o inquilino da minha tia mudou e ela me ofereceu a casa dos fundos dela, com a boa notícia de que ela e meu primo, Rubens, decidiram que não me cobrariam aluguel.
Deixei a culpa de abandonar meu pai e irmãos e tomei coragem de contar minha intenção, argumentando que precisava estudar e cuidar do meu futuro. Meu pai não gostou, mas não tinha argumentos, pois infelizmente eu já não o respeitava havia muito tempo. Eu não era agressiva, só não tinha aquele apreço, que o amor, o cuidado e o respeito nos dá. Meu pai e meus irmãos eram quase estranhos para mim, pois vivíamos em mundos tão distintos que chegava a doer.
E no dia 22 de julho de 1982, eu me mudei e levei a geladeira; alguns meses depois, a culpa me fez comprar uma usada para eles. Soube, algum tempo depois, que algumas pessoas me condenaram por ter saído de casa, mas essas pessoas nunca foram me dar nenhuma palavra de aconchego, nas inúmeras vezes que eu necessitei. Até hoje não me arrependo.
Assim, morei na casa da minha tia até 2001, quando comprei o apartamento em que estou hoje e mais uma vez, devo à eles, minha tia e primo, muito das minhas conquistas e do amor que eles puderam me dar, a mim e a minha filha também.



As alegrias



“Visão sem ação é um devaneio.
Ação sem visão é um pesadelo.”
(Provérbio japonês)



Como eu sou fã de diversões e dentro do possível, brincar com as desgraças da vida, vou tentar relatar algumas das coisas divertidas também, porque elas existiram.
De criança, já relatei sobre as brincadeiras na rua, minhas habilidades masculinas e etc.
Na adolescência, a arte era o handball, que eu não era genial, mas defendia bem as boladas da Ana Alice, um 2x2 na versão feminina.
Tem algo que me acompanha desde a tenra idade, que é a habilidade de cantar mal e alterar qualquer letra de música que eu goste. Ah, sou boa nisso! tem sempre uma palavra que eu entendo errado e muda todo o sentido da frase musical....hahahaha
Bom, era divertido as meninas do colégio virem até minha casa ( o legal era não ter um adulto para atrapalhar nossas diversões) e a gente poder cantar, teve uma vez que fizemos batata frita e morremos de rir de tanta trapalhada na cozinha. Outra coisa era poder andar pelas ruas, ver os meninos bonitos, olhar as placas dos carros e saber que 00(ele me ama), 99(eu amo ele) (assim mesmo!), 88( vai ter beijo), - não nessa ordem, mas tinha esse efeito, ver placas de carros. Contar nossas infantilidades como algo muito especial. A gente era inocente demais...
Aos 16 fui com minha melhor amiga, Jane, e sua família, para a praia e foi o acontecimento mais feliz daquela época. Um pouco antes disso, eu gostava muito da idéia de chamar a mãe da Jane, D.Kika, de mãe. Ela era tão gentil comigo, me chamava de " meu bem" e me beijava, o que era raro acontecer comigo.
O mar me transmitia um poder e um fascínio inigualáveis. Nessa fase descobri o apreço de sentir o frescor da manhã, que é minha parte preferida do dia. Adoro essa sensação de recomeço que a manhã traz, junto com o silêncio e o nascer do sol.
Tenho também boas lembranças de longas caminhadas com a Soninha. A gente era feliz mesmo com o pouco que tinha. Talvez por desconhecer as coisas que poderíamos ter. Nossos sonhos tão doces e tão longe do que temos hoje!
Tenho que admitir que não era muito divertida minha vida, mas dava para ter ilusões...

                                                                   

Das crenças

"Não há satisfação maior do que aquela que sentimos
 quando proporcionamos alegria aos
outros."
(M.Taniguchi)


Minha formação inicial foi católica, praticante, mas como disse anteriormente, as atitudes do padre me fizeram duvidar um pouco daquilo tudo e eu já achava um pouco estranho: pensar que aquelas imagens tinham poder real. Mas, sem dúvida eu tinha muito medo da ira de Deus. Era pecado mentir, falar mal das pessoas, responder para os pais e etc. Mas era meio tolo para mim, toda semana confessar os pecados, ter como punição rezar aquelas orações decoradas e depois pecar, rezar e...
Mesmo assim, fui crescendo acreditando que havia algo misterioso e fascinante, algo que eu não podia provar, mas que eu sentia ser verdade e que me dava alguma tranquilidade em meus dias não raros de desespero e solidão.
Minha vizinha, que era a pessoa mais próxima das minhas afeições adultas cotidianas, era adepta da Umbanda e chamava isso de espiritismo. Conheci os atabaques, o preto-velho e várias demonstrações de como esse "espiritismo" funcionava. Embora tivesse curiosidade, não era exatamente assim que eu achava que funcionava, porque tinha uns lances de bebidas, de palavrões e sacrifícios de animais, que me deixavam perturbada.
Na minha concepção de religião, seria tudo paz, amor e tranquilidade e aos poucos, fui rejeitando também essa opção.
Certa vez, li um artigo sobre Allan Kardec e a Doutrina Espírita e aquelas informações vinham mais ou menos de encontro com o que eu pensava. Passei a ler mais e mais, tudo aquilo que podia a respeito dessa Doutrina, que me fazia uma pessoa melhor e dava a paz que necessitava, além de respostas mais sensatas a respeito das eternos perguntas da humanidade.
Muitas coisas eram complexas demais para mim, mas os romances espíritas, especialmente da Z. Gasparetto, ajudavam a exemplificar o que dizia a teoria.
Devo muito a essa doutrina, pois a raiva e frustração que afloraram, depois de muitos anos, foram aplacadas pelas explicações que vinham dela.
Ter estudado psicologia também me fez bem do ponto de vista de controlar emoções e entender algumas das neuroses que me acompanham.
O que eu nunca consegui, foi me sentir parte do mundo. É como se eu fosse uma estranha entre iguais. Nunca consegui confiar inteiramente no amor das pessoas, mas acho que ninguém está inteiramente livre de suas neuras. Afinal, esse é o processo de progressão espiritual.
Tive muitos altos e baixos também no espiritismo, porque às vezes me irrita essa doação para com os outros, quando eu preciso tanto que doem para mim. É, falta muito para trilhar o caminho da perfeição...
Ultimamente não tenho lido, nem frequentado casas espíritas. Meus desequilíbrios tem aumentado e algumas vezes eu volto a conversar com Deus e os espíritos, peço desculpas e ainda para que eles tenham paciência comigo, pois ando mesmo cansada.
Ainda hoje acho que essa é a melhor opção, na religião, mas sinceramente não tenho vontade de praticar nada ultimamente.
                                                                      

sábado, 15 de maio de 2010

Dos meus amores





"O caráter é como uma árvore e a reputação como sua sombra. 
A sombra é o que nós pensamos dela; a árvore é a coisa real."
(Abraham Lincoln)

Meu primeiro amor aconteceu aos 12 anos, com toda a turbulência que minha vida se encontrava, eu sentia o coração quase saltar do peito, quando via aquele moleque, empinando pipa na casa do amigo, que era meu vizinho. Seu nome era Wagner. Durou 7 anos. Tivemos um namorico, e terminou quando eu soube que ele iria se casar porque a garota dele estava grávida! Ah, os homens da minha vida!
Aos 20 anos conheci, no Ministério da Fazenda, o homem com quem eu realmente achei que fosse me casar. O Gilmar era a pessoa que mais se parecia comigo: sensível, apaixonado, determinado.
Nessa época eu comecei a me interessar pelo Espiritismo, por ter lido alguns tópicos que se encaixavam perfeitamente ao que eu pensava, e olha que eu pensava muito, a respeito de todas as coisas. Eu sempre saía caminhando pelas ruas e pensando sobre todos os acontecimentos da minha vida, passava horas no portão de casa, olhando para o céu e imaginando como seriam as determinações de Deus; se havia destino, causas e consequências.
Ele era de família espírita, ou quase, estudava, queria fazer Medicina. Nossas conversas eram muito agradáveis e o amor era sincero. O sexo foi algo natural e mesmo com meus bloqueios, era bom. Até quando certa vez, minha menstruação atrasou (sempre tive muitas reações com os anticoncepcionais daquela época) e veio a possiblidade de gravidez. Ele se desesperou e me disse que aquilo era o fim da vida que ele sonhava, que aquilo estragaria tudo e coisas que a sensibilidade masculina não tem idéia dos reflexos, especialmente para uma pessoa como eu. (Eu sempre digo que não é o que diz, mas "como" se diz). Foi só um atraso; ele passou na Puc de Sorocaba, e minha vidraça estava trincada!
No começo, a gente escrevia cartas toda semana. Eu não tinha telefone e não havia computadores ainda. Depois, para ajudar os pais, que bancavam a faculdade, ele começou a dar aulas, depois começaram as provas, os plantões e nosso amor não resistiu à distância e após cinco anos e meio juntos, acabou. Ele se casou em 1989, com uma médica de Campinas, após 1 ano de namoro. Tenho algumas dores por conta de coisas que prefiro não mencionar. Ainda tentei voltar a estudar, no ano em que terminamos, eu fazia cursinho, porque ia tentar Medicina de novo (era meu modo de tentar fazer parte do mundo dele, numa ilusão de que poderia!).
No ano seguinte conheci o pai da minha filha, Fábio, com quem tive uma relação muito tumultuada. Uma pessoa muito inteligente, fazendo exatas, agnóstico e com um histórico de alguns amigos suicidas por não aguentarem o peso dos questionamentos do ser. Engraçado que após o término do meu relacionamento anterior, muito perdida emocionalmente, eu pedi a Deus para me dar um caminho a seguir e uma pessoa de quem eu pudesse cuidar. Achei que fosse ele, mas ele era o intermediário para que eu tivesse minha filha. Tivemos 3 anos de idas e vindas, um aborto e a vinda da minha filha, que foi quem salvou minha vida.
O mais importante a relatar aqui é que foi demais para ele, a possibilidade de ser pai e ter que assumir uma família. E eu ainda acreditei que quando ela nascesse, ele mudaria de idéia, porque na minha cabeça, seria impossível não amar alguém que veio de você e de alguém que você ama.
Quando eu reli o que escrevi, percebi que faltou falar sobre muitas coisas que aconteceram, e que é difícil descrever umas tantas outras, mas à medida que novas meadas forem puxadas, voltarei a comentar sobre esse período.
                                                                    

Adicionais da adolescência





“”Não há acaso, sina, destino, que possa limitar, impedir ou controlar a firme resolução de uma alma determinada.”
(Ella Wheller Wilcox)

Na 5ª e 6ª séries estudei Francês e desde cedo me identifiquei com idiomas. A curiosidade com relação à novidade sempre foi algo fascinante para mim e fiquei apaixonada pelo idioma.
Depois tivemos inglês, que era igualmente apaixonante, especialmente porque tínhamos músicas do M. Jackson como "Ben", por exemplo. Eu ouvia a rádio Difusora, na época. Gostava de Bread, Bee Gees, Beatles e B. J. Thomas, entre outros.
Eu tinha adoração pelo handball, pela escola e por minhas amigas, três delas são minhas amigas até hoje. Embora tenhamos nos separado em 1977, quando fui para Guarulhos e cada vez tenha se espaçado mais nossos contatos, durante o período da faculdade. Voltamos a nos reencontrar em 2003 e nos vemos mais freqüentemente agora. Em 2009 reencontrei muitos colegas do período de adolescência, o que foi para mim, muito gratificante. Estamos tentando não perder o contato novamente.
Eu não gostava mais de Carnaval, não gostava de ir aos "bailes". Foi o momento em que me distanciei do mundo e passei a ser "weird". Não me sentia parte de quase nada, mesmo porque parei com o handbol na 8ª e nunca mais retornei. I used to play handball, when I was a teenager.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Dos 11 aos 19 anos


O homem não teceu a teia da vida,
ele é meramente um fio nela.
Tudo o que ele faz à teia, ele faz a si mesmo."
(Carta do Cacique de Seattle)








Começou aos 11 anos, uma vida em que a brincadeira era ser adulto, nada de gostar de estudar, porque tinha roupa para lavar, nada de gostar de handbol ou corrida no colégio, porque tinha que cozinhar feijão, nada de brincar na rua, porque tinha que limpar a casa. E as únicas horas em que eu era realmente feliz, era quando eu punha meu shorts vermelho, minha saia branca de preguinhas e meu "conga" e ia para a aula de educação física da professora Alice.
O feijão queimava ou ficava duro, a roupa acumulava e a casa fica em petição de miséria, mas com que diabos alguém, em sã consciência, poderia acreditar que uma menina de 11 anos daria conta de cuidar de uma casa com 5 homens e ela? Ainda hoje eu me pergunto como, algumas vezes também por quê?
Aos 12 eu conheci a menarca e os tormentos de iniciar um corpo de mulher. Era difícil não ter uma referência feminina para essa mudanças, e certamente eu não queria ser dona de casa, muito menos mulher. Um terror se apoderava de mim quando o lado masculino me dirigia olhares lascivos e eu não conseguia entender o que eu tinha feito de errado para aquilo acontecer. Piorou ainda mais, quando esse terror vinha à noite, do meu próprio lar e da pessoa que eu nunca consegui respeitar, depois disso, e que me fazia ver os homens como realmente pessoas a se temer. Felizmente nunca aconteceu o pior, mas eu dormia com calça jeans, o mais apertada possível, com medo de algo que eu não sabia bem o que era.
Nessa época iniciou-se meu fascínio pela leitura. Lia tudo o que encontrava, admirava as dicas de etiqueta e sentia um fascínio pela pessoas bem educadas, que falavam baixo e de forma delicada, que tinham classe e diziam coisas inteligentes, dos lugares limpos e das famílias em que pai e mãe estavam presentes. Sonhava com as fotonovelas e vivia num mundo de fantasias, interpretando situações e deixando a criatividade fazer o seu papel.
E eu me rebelei, fui para o fundo da sala de aula, fiz bagunça, cabulei algumas aulas, tirei 0,5 em Geografia e Matemática, depois estudei feito louca, com medo de repetir de ano (nunca pude admitir repetir, eu era considerada inteligente, ah isso não!) e tirei 9,5 em ambas matérias. Levei um puxão de orelhas da professora de geografia, que era também professora do meu irmão, e de algumas pessoas que me queriam bem.
Aos 13 eu já era uma menina triste, que chorava freqüentemente e se perguntava por que tinha que cuidar dos irmãos, ter um pai bêbado e ter que receber seus materiais escolares dos amigos de sala de aula (era humilhante e gratificante), usar roupas que eram doadas por outras pessoas e não se sentir nem um pouco amada. E tinha também o assédio do marido da minha vizinha, que insistia em querer sair comigo. Eu tinha asco dele.
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As coisas mudaram muito pouco nos próximos anos, até que aos 16 eu resolvi trabalhar; aos 17, com a situação ficando insustentável, fomos divididos: eu e os dois menores fomos morar na casa da minha madrinha, e os dois mais velhos na casa do meu tio Minoru. Voltamos para casa quando eu fiz 18, porque minha tia não tinha condições de nos sustentar, eu não conseguia um emprego e também porque meu irmão mais velho, freqüentando a igreja católica, achou por bem perdoar o meu pai e retornarmos.
Aqui, propositalmente eu omiti meus relacionamentos afetivos, por querer falar deles em separado, numa próxima postagem.
Aos 18, consegui um emprego numa empresa chamada Cobrasfer (ferramentas pneumáticas), fazia cursinho pré-vestibular num local chamado Equipe. Na Cobrasfer fui assediada por um cara que eu ia substituir, que era casado e prometia se separar da esposa por mim. E eu me perguntava por quê essas coisas aconteciam comigo, eu nunca ia querer servir de separação para ninguém, não me interessavam os caras casados, at all.
Nessa época conheci uma garota, que se tornaria meu primeiro ídolo feminino e que me mostrou o caminho para a independência pessoal e financeira. Ela morava sozinha, numa kit na Vergueiro, trabalhava no Hospital Beneficência Portuguesa e pensava em estudar Medicina. Tencionava fazer algo assim e Medicina me pareceu algo com o que eu me identificava muito e decidi que iria fazer também. Só não contava que trabalhava o dia inteiro, não tinha condições financeiras , nem emocionais para algo assim. E não passei nos Vestibulares para Medicina, mas como segunda opção (Psicologia), em Guarulhos, passei nas duas faculdades de lá. Optei pela que minha melhor amiga na época tinha passado, especialmente porque o pai dela iria me emprestar o dinheiro para a matrícula, que eu teria só dias mais tarde.
Já com 19 anos, estava cursando Psicologia, que também atendia aos meus anseios de "ajudar pessoas" e mudei de emprego para o Serpro, trabalhando no Ministério da Fazenda por 3 anos.


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Da adolescência

"O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o." Carl Sagan








Começou com a minha entrada para a quinta série e o primeiro trabalho em grupo foi na minha casa para o orgulho da mamãe. Depois a alegria de saber que eu teria uma irmã, pois ela estava grávida e o nascimento estava previsto para o mês do meu aniversário. A morte das duas. O vazio que minha alma sentiu e ainda sente. Meu pai ausente e desequilibrado, que me deixou profundas marcas e a desconfiança nos homens. Meu primeiro amor. O handball, as corridas e as novidades na escola. A tristeza de ter ser adulta no corpo de uma criança. A sensação de que todos sabiam que minha mãe estava viva em algum lugar e só eu não sabia onde. O desejo de me sentir amada e respeitada, desejando desesperadamente um "príncipe", um lar e três filhos dos sonhos.
Os onze anos foram marcados por essa enorme perda. Eu estava começando a perceber que tínhamos coisas em comum. Ela tinha enxaquecas freqüentes e ficava deitada com rodelas de batata na testa para melhorar. Nos últimos dias me pediu para lavar uma camisa do meu pai e ficou feliz por eu ter conseguido. Eu ia poder cuidar da minha irmãzinha. Sempre gostei de crianças, muitas vezes saía brincando com elas, nos colos de seus pais e quase me perdia da minha mãe. Naquele dia 19 de abril, eu tinha ido para a escola e quando cheguei, no fim da tarde, minha vizinha disse que ela tinha ido ter a minha irmã. Fiquei tão feliz! No dia seguinte, meu pai tinha ido trabalhar e eu não entendi por que ele não estava com ela. Estava estranhamente preocupada e quando eram 9h, tive uma visão horrível, dela se debatendo em agonia. Fui até a "venda" e pedi para ligar para o hospital. A voz do outro lado perguntou: - O que você é da paciente? -Filha... - Fala para o seu pai vir imediatamente ao hospital, porque ela está passando muito mal. (Uma dor intensa!) Ela tinha falecido às 6h. Peguei um táxi, fui ao serviço do meu pai, dei o recado, fui deixada em casa e duas horas depois, minha tia conversava com a vizinha, dizendo não saber como contar. Eu ouvindo tudo pela janela!




Adicionais da infância



"Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer coisa."
(Nietzsche)


Meus pais eram católicos, mas só me lembro da minha mãe indo com a gente à igreja. Bem cedo eu desconfiei dos propósitos da igreja, ao ver o padre fazer, fora da missa, o que dizia ser errado, enquanto durante a mesma. Ele fumava, brigava com as pessoas, era arrogante, etc. Mas quando fiz o preparatório para a primeira comunhão, fiquei apaixonada por um padre angolano, que era a bondade em pessoa, o Padre Vitor.
Parece que não havia brigas entre meus pais, porque não me lembro de nada significativo.
Meu pai era semi analfabeto e minha mãe cursou os quatro primeiros anos escolares.
Segundo relatos, ele dizia que os filhos seriam médicos, engenheiros ou advogados, mas a filha não iria estudar porque ele não queria que ela fosse "alvo" de maus elementos. Só a filha fez faculdade e gosta de estudar.
Não havia o hábito de ler, ou atividades em conjunto, mesmo porque, com cinco filhos, minha mãe fazia milagre para manter a casa em ordem, alimentar-nos e ainda costurar nossas roupas.
Aos domingos à tarde íamos à casa de um tio materno para assistir televisão.
Tive um tio polonês e um japonês, casados com as irmãs do meu pai. O último, me ensinou algumas palavras e a contar em japonês. Era uma boa pessoa também, meu tio Minoru. Ele tinha um carro grande, um Galaxie, e de vez em quando nos levava para passear.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Das coisas que me lembro




”Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
em vão, por toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!"
(Mário Quintana)




Lembro pouco das coisas da minha infância, sei algumas que me foram contadas, mas tenho a sensação de que foi o melhor período da minha vida.
Sou a terceira de cinco filhos , a única mulher. Depois de mim, houve uma gravidez que resultou em morte (não sei o motivo) e, quando eu tinha quase 11 anos, oito dias para os onze, minha mãe morreu no parto, provavelmente de ataque cardíaco, e a criança, ou gêmeas como acreditei até bem pouco tempo, também morreram. De lá pra cá, as coisas pareceram, quase sempre, doloridas e sem sentido para mim.
Eu sempre tive um olhar brilhante e curioso e um desejo de saber e explorar. Uma energia, que fazia me mãe dizer, injustamente, é claro (se existe céu, ela deve estar sendo processada por injúria e difamação...haha), que eu era pior que meus quatro irmãos juntos. Bom, eu gostava de subir no batente da porta até chegar ao fim dela, gostava de subir nos muros e pular de sobrados em construção (na areia que ficava em baixo), jogava rouba-monte, apostava corrida, chutava bola, brincava de amarelinha, queimada, esconde-esconde, duro ou mole.
Minhas bochechas eram rosadas e minha saúde ótima, embora nós tivessemos uma vida difícil. Meu pai era sapateiro e minha mãe aposentada por invalidez (parece que teve algo como osteomielite no quadril, foi proibida de engravidar, mas a ignorância prevaleceu e a morte a levou aos 37 anos, dez dias antes de completar 38. Tudo no mês de abril. Ela nasceu dia 30 e morreu no dia 20. Eu nasci no dia 28.
Das lembranças da infância, tenho dois episódios hilários: no primeiro, era carnaval e nós tínhamos a felicidade de brincar na rua. Eu morava num bairro chamado Parada Inglesa, em São Paulo e era muito bom poder brincar de jogar confete e serpentina. Tinha os martelinhos, que as pessoas usavam para bater nas cabeças uns dos outros, enfim, era saudável. Acontece que para ter essas coisas, era necessário comprá-las e meus pais não tinham dinheiro para tais extravagâncias. Eu devia ter uns 6 anos, mais ou menos e decidi que pegar um pouco de dinheiro da gaveta do meu pai, achando que não era nada demais e ele nem perceberia, porque eu era "muito esperta". Comprei confete, serpentina, joguei nas pessoas e a diversão foi geral até que fui perguntada como tinha conseguido tais coisas. Tentei mentir dizendo que tinha achado e apanhei mais ainda por ter mentido. Mas valeu a diversão! O segundo acontecimento foi a origem do meu medo por aranhas. Meus pais eram rígidos com pegar coisas que não nos pertenciam, mas aqueles sapatos que minha vizinha tinha jogado no lixo, eram tão bonitos e tão novos ainda, que resolvi experimentá-los e caso servissem, eu pediria a ela para dizer que queria dá-los para mim e tudo estaria bem. Para isso, escondi os três pares e entrei escondida no banheiro e tranquei bem a porta (nosso banheiro ficava ao lado da entrada da casa e a porta tinha uma abertura em baixo e outra em cima). Experimentei o primeiro par e oba! serviu, experimentei o primeiro pé do segundo par e ao pegar o segundo pé, o sapato caiu e saiu dele uma enorme aranha branca. Eu gritava tanto que meus pais ficaram desesperados e enquanto eu tentava me esconder atrás do vaso sanitário, a aranha vinha em minha direção e meu pai tentava abrir a porta, quando ela mudou de rumo e foi parar em cima da mão do meu pai, que acabou por matá-la. Ao abrir a porta, eu estava histérica e corria sem parar, até levar um chacoalhão para recuperar a sanidade. O pior foi ter que devolver os sapatos, que foram para o lixo mesmo!
Tive outros momentos, tipo correr no quintal em L que tínhamos e minha mãe falar para parar senão eu ia acabar me machucando e acabei por escorregar e bater o olho na ponta da cadeira. Tenho uma cicatriz para provar...Isso aos 5 anos mais ou menos.
Aos quase sete, a ansiedade de ir para a escola, me fazia reclamar porque não me chamam logo, meu nome começa com R, demorava mesmo! e quando me chamaram, gritei tanto que era eu, que minha mãe ficou envergonhada.

 Na foto, sou a segunda à direita na primeira fila ao alto.
Acho que tá bom, no próximo vou focar a adolescência.