“Não podemos mudar coisa alguma a menos que a aceitemos."
(Carl G. Jung)
Em geral as pessoas evitam falar sobre o assunto morrer e morte.
Talvez seja meio mórbido da minha parte, mas sempre tive curiosidade em falar e ouvir sobre o assunto.
Agora chegou a minha vez de pensar a respeito, já que estou na casa dos cinqüenta e a proximidade da morte já ronda meus pensamentos. Algumas vezes de modo depressivo, algumas por saber que é o caminho de todos nós e que exige muito desprendimento.
A vida é celebrada e cada etapa tem seus brilhos, decepções e aprendizados.
Eu me lembro da energia, da vontade de subir em coisas e lugares, da necessidade de conhecimento das novidades.
Hoje olho no espelho e me sinto perdendo a vitalidade, os músculos e ossos não respondem da mesma forma e com a mesma força e tudo o que mais desejo é não sentir dor. Elas já aparecem, pois tenho me exercitado pouco, engordo e emagreço, num vai e vem assustador. A menopausa anuncia o começo do fim e um aumento abdominal já se pronuncia, sem que eu consiga segurar como antes. Os cabelos teimam em ficar cada vez mais brancos e nem a tintura consegue vencê-los tão bem. O raciocínio falha, o controle remoto e as novidades eletrônicas começam a ficar mais difíceis de entender e eu começo a gostar de fazer tricô. Tem também a maior necessidade de ter os pés cobertos, pois quando esfriam, demoram demais para aquecerem e isso custa muitas horas de sono. As mãos já não têm a pele lisa e o rosto já perdeu a vitalidade da juventude.
Em várias situações, percebo que estou “passada” para fazer certas coisas, embora, falsamente, as pessoas digam que a gente pode tudo, que o importante é ter a mente jovem. Na prática é um pouco diferente.
Já não tenho paciência para locais e pesssoas barulhentas; certos assuntos me aborrecem, por saber que não vão levar a lugar algum. Não tenho mais coragem para fazer diversas coisas, prefiro a prudência e quero ir devagar e saborear as coisas que gosto: música, passeios, comer, cozinhar, ler, estudar e conversar.
Tenho alguns temores tais como: não poder mais ver minha filha, não ter o aconchego da minha casa e cama que eu adoro, não poder comer as coisas que gosto e principalmente sentir dor, frio ou fome (mas como essas sensações são do corpo físico, quem sabe sejam dispensáveis).
Se acaba aqui, é um disperdício, mas valeu pelo conforto, conhecimento e relacionamentos que eu conquistei.
Se continua em algum lugar e de alguma forma, espero poder encontrar as pessoas que me foram caras, nesta ou em outras vidas e prosseguir nessa outra etapa da melhor forma possível.
Se prosseguir e não for possível reencontrar afetos e desafetos, que seja interessante e que pelo menos eu tenha energia para novos conhecimentos e possibilidades.
É pouco provável que alguém leia meu blog, mas se houver e quiser fazer perguntas ou colocações, sejam quais forem, acho interessante abordar esse assunto.
Quando eu for embora, não quero enterro, nem velório. Acho um sofrimento totalmente desnecessário. Quem puder, pense em mim com carinho, transmita desejos sinceros de paz e tranqüilidade. Se houver respeito pelo meu corpo e ele for útil, a doação de órgãos poderá ser feita com toda a minha aprovação. Caso contrário, concordo com a cremação e, se necessário um período de espera, que o ambiente tenha música clássica, suave e com baixo volume.
Já nasci, cresci, vivi quase todas as fases, gostaria ainda de experimentar ser avó, mas deixar a vida da Terra, é inevitável, portanto, que seja suave!

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