sábado, 15 de janeiro de 2011

Anotações sobre ser mãe...





Outro dia, revendo alguns papéis que guardo com um certo carinho, encontrei algumas anotações sobre o desenvolvimento da minha filha e, é claro, minhas alegrias e desesperos como mãe.
A gente sempre houve que "ser mãe é padecer no paraíso". Eu costumava dizer que só conhecia o "padecer", mas não é verdade. Revendo um pouco minha vida; aos 50 anos a gente tende a fazer essas revisões; concluí que as alegrias ainda foram em maior número e que a experiência foi, portanto, positiva.
Vou começar fazendo um breve relato de como aconteceu a concepção e suas consequências.
Meu primeiro grande amor, G. foi alguém com quem eu tinha muitas afinidades e com achei que iria me casar. Nos conhecemos no Ministério da Fazenda, onde trabalhamos por mais ou menos três anos. Ficamos juntos por cinco anos e terminou porque eu não consegui administrar a distância que a faculdade de Medicina em Sorocaba nos impunha, e  "no doubt", eu não tinha a menor chance de ser a escolhida, caso houvesse uma escolha.
O término deu-se em 1985 e em 1986, eu conheceria F. (pai da minha filha), no Anglo, um cursinho para Vestibular.
Já de imediato, as incompatibilidades estiveram presentes, mas havia algo delicioso naquela pessoa, de uma inteligência brilhante, alguns gestos doces e uma anormalidade evidente.
F. não gostava de crianças, não queria se casar, nem ter família, era admirador das genialidades germânicas (Hitler, inclusive) e já fizera parte de pequenos grupos que discutiam tanto sobre a existência, que alguns terminaram por optar pelo suicídio, consequência da angústia que isso gerou. Além disso, possuía um livro de técnicas de suicídio.
Estava fazendo cursinho havia cinco anos, mas por conta de um bloqueio, pois sua inteligência é, sem dúvida, acima da média,e o tal bloqueio o impedia de prestar vestibular e fazer o tão almejado, pela família dele, é claro, curso de Engenharia. Como parece que sua vida só se modifica com traumas, em 1990, quando nossa filha nasceu, ele prestou vestibular e entrou na USP, no curso de Engenharia Mecatrônica. Outros traumas fizeram algumas outras coisas na vida dele (só para constar).
Ah, detalhe, ele pertencia, e ainda pertence, ao grupo familiar que tendo uma condição financeira melhor que muitos, including myself, menosprezam os menos favorecidos. Mas, isso tudo mascarado por extrema boa educação (que fique bem claro).
Com todo o meu histórico, ele não era a pessoa "ideal" para mim!? (sarcasmo!)
Pois é, eu via nele a doçura que ninguém via, a gentileza, a educação, o conhecimento e até mesmo a ingenuidade que norteia os, hoje chamados, "nerds".
Com muitas idas e vindas e um conturbado início sexual, engravidei a primeira vez, motivo pelo qual ele fez da minha vida um inferno. E com toda a dificuldade que tenho em me sentir amada, acabei por aceitar o aborto, porque já não aguentava mais a pressão diária a que ele me submetia.
Quando minha menstruação atrasou, a sensação era um misto de medo da reação dele e uma felicidade por ter o poder de gerar uma vida, uma criança (sempre tive adoração por elas, e ainda hoje, digo, egoísticamente, pena que crescem, senão teria mais uns três). 
Ao ver "positivo"  no exame, minha felicidade foi maior que tudo que poderia me assustar e alimentei algumas horas de felicidade, antes das consequências, virem me assombrar com suas verdades incontestáveis: solteira, morando de favor na casa da tia que não tinha muita saúde, baixo salário e um pai que nunca desejou ser pai da minha criança.
Definitivamente eu sei me meter em grandes confusões!
Minha fragilidade sob os argumentos dele, foi algo como uma formiga sendo esmagada por um elefante, e eu prometi para mim mesma que nunca mais queria ver a cara dele. E como "sempre" e "nunca" são tempo demais, após uma semana, ele me procurou, chorou e disse que não queria ter me magoado daquela forma, que eu o perdoasse e...
Em junho de 1989, grávida novamente e mais fortalecida dessa vez, tive que fazer a difícil escolha entre ele e meu bebê. Minha culpa pelo aborto era imensa e eu sabia que não o faria novamente. Além do mais, eu acreditava, piamente, que ao ver o bebê, ele não conseguiria resistir aos encantos e à força da paternidade e ficaria conosco. "Felizes para sempre!" ahan... Vasto engano.
Tivemos um pequeno duelo de argumentações, onde todas as minhas fraquezas foram expostas novamente, em um brilhante turbilhão de humilhações (muitas até verdadeiras); e uma relação sexual, onde ele achou que com força, conseguiria me fazer perder o bebê. Depois houve até algumas ameaças, incluindo a afirmação de que havia cogitado em me matar... Quanta doçura!
Depois disso, ainda tivemos um encontro quando eu estava com sete meses de gravidez e fiquei feliz por ele ter dito que eu estava uma grávida bonita. O amor é lindo, isn't it?
Minha filha nasceu em 15 de Fevereiro de 1990, às 10h40 no Hospital Beneficência Portuguesa, onde eu trabalhava. Minha tia Lurdes e meu primo Rubens estavam comigo nesse dia! Deus os abençõe sempre!
Avisei-o quando ela estava com 15 dias de nascida e levei uma bronca por não ter avisado antes, mas recebi a informação de que ele não viria conhecê-la.
Tive depressão pós parto e uma grande carência nos primeiros meses.
Quando ela estava com dois meses, certo dia não havia nada que a fizesse parar de chorar: eu já havia dado banho, alimentado, examinado ouvido, virado de bruços, por achar que seriam cólicas e nada. Ela berrava e num momento de desepero, eu a sacudi e gritei: "O que você quer, pelo amor de Deus?" e a pobrezinha parou de chorar na hora e então eu derramei todas as lágrimas sufocadas durante todos aqueles meses, e de quebra, por me sentir a mais cruel de todas as mães do Universo. Como se diz hoje "foi tenso!".
Ela era uma criança maravilhosa. Após esse incidente e talvez por conta dele, dormia a noite inteira e eu tinha que acordá-la para mamar. Não sofria com cólicas, não trocava a noite pelo dia e seu desenvolvimento era normal, já tomava suco de laranja lima,  tomate,  cenoura e água. Além disso, era e ainda é linda!
A partir de agora, começam meus relatos do seu desenvolvimento, então deixo para outra postagem.


Detalhe: tirei muitas fotos grávida, mas todas estavam no mesmo rolo de filme, que, certa vez, por acidente, abri e todas queimaram. Como é bom ter câmera digital, Internet, computador e scanner hoje!






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